Coma, beba e desfrute de tudo.
Emporcalhe cada centímetro da toalha branca.
Os restos, deixe onde caírem.
Os vermes cuidam de tudo no final.
Onde estás que não respondes?
Onde ocultas sua face marcada
pelo tempo e pela saudade?
Evitas encarar meu rosto
pelo medo do que verás refletido
em minhas pupilas.
Inutilmente tentas fugir,
como uma mosca, ficas a bater
contra algo que não sabes o que é.
Desvairadamente tentas arrancar de si
o que julgas que o macula.
Mal percebes que pelo caminho
vais se deixando. Vais deixando de ser.
E não sabes que por mais que tentes
jamais deixarás de ser o que és.
E mesmo depois que estiveres totalmente nu,
ainda verás em meus olhos
as marcas que deixaste em mim.
Branca, janelas azuis.
Onze ou doze galinhas.
Um porco a engordar.
Sobre o fogão a lenha
lingüiça e bacon.
No pequeno gramado
flores crescem vaidosas
e descuidadas.
Quando em vez
amigos trazem livros novos.
Levam ovos e saudades,
que sempre os faz voltar.
B.M.P.
Quanto de nós tem que morrer?
O quanto será necessário domar este jardim
que teima em crescer para todos os lados?
Pouco a pouco a convivência faz atrofiar
ramos que talvez um dia florescessem.
Nada como estar perto.
Nada como estar longe.
Morrer um dia por vez
eis um negócio perigoso.
Pouco a pouco a ausência faz murchar
folhagens um dia frondosas.
De cima do meu monte tendo divisar o horizonte.
Constato imediato não haver monte, há um buraco.
Não tenho de onde pular.
B.M.P.
Na madrugada o telefone toca prenunciando a morte.
Corta o silêncio como o bisturi do legista já corta o cadáver.
Do outro lado da linha uma mãe, retirada das profundezas
de cinco miligramas de rivotril ouve a notícia.
Chega ainda de camisola no hospital.
Tarde demais para ouvir o último suspiro do filho
e para dizer o derradeiro dorme com deus.
B.M.P.
Até onde posso enxergar meus amigos são férmions
espalham-se pelo mundo e parece
que tendem a atingir uma distribuição uniforme.
Às vezes tento exercer a arte da auto-enganação
e fico imaginando vantagens de se conhecer pessoas em todo lugar.
A ilusão dura pouco e ao olhar pela janela
vejo a lua crescente, um estreito e zombeteiro sorriso
que o céu exibe como que a dizer:
“Tudo bem... Eu posso te fazer companhia.”
E eu fico aqui... Sozinho com o sarcasmo do céu.
B.M.P.