sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Hospitalidade

Entre quando quiser e fique a vontade.
Coma, beba e desfrute de tudo.
Emporcalhe cada centímetro da toalha branca.
Os restos, deixe onde caírem.
Os vermes cuidam de tudo no final.

B.M.P.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Onde estás?

Onde estás que não respondes?

Onde ocultas sua face marcada

pelo tempo e pela saudade?

Evitas encarar meu rosto

pelo medo do que verás refletido

em minhas pupilas.

Inutilmente tentas fugir,

como uma mosca, ficas a bater

contra algo que não sabes o que é.

Desvairadamente tentas arrancar de si

o que julgas que o macula.

Mal percebes que pelo caminho

vais se deixando. Vais deixando de ser.

E não sabes que por mais que tentes

jamais deixarás de ser o que és.

E mesmo depois que estiveres totalmente nu,

ainda verás em meus olhos

as marcas que deixaste em mim.

B.M.P.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Olvidadas

Olho pela janela e saudoso lembro do tempo em que as pessoas sabiam conversar.
Algumas, as julgadas eruditas, sabiam até mesmo ler e escrever.
Fascinantes histórias eram contadas, enchiam-se páginas e mais páginas com pequenos símbolos negros, com os quais o poeta exorcizava sua alma, e gentilmente nos dava toda sua agonia.
Sentados, junto ao fogo nas noites frias, nas varandas sombreadas nos dias quentes, em volta da comida na maioria das vezes, amigos narravam seus dias, seus sonhos, suas desilusões e pequenas vitórias que tornavam suportáveis suas vidas tacanhas.
Vizinhas valiam-se das janelas para fiscalizar as vidas alheias e as fofocas pulavam de casa em casa e os pequenos escândalos privados tornavam-se públicos.
Até mesmo as crianças tagarelavam seus faz-de-conta e suas mirabolantes idéias de mundos fantásticos e irreais aos obtusos olhos dos adultos.
Infelizmente as palavras acabaram, foram gastas, estão hibernando.
Ouvi falar que ainda há umas cinco ou seis que sobreviveram refugiadas em uma mente louca, onde estão tentando se juntar e formar um pequeno poema, bem barulhento, que acorde as outras.
Infelizmente não estão achando uma rima.

B.M.P.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Paraíso

Branca, janelas azuis.

Onze ou doze galinhas.

Um porco a engordar.

Sobre o fogão a lenha

lingüiça e bacon.

No pequeno gramado

flores crescem vaidosas

e descuidadas.

Quando em vez

amigos trazem livros novos.

Levam ovos e saudades,

que sempre os faz voltar.

B.M.P.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

O salto

Quanto de nós tem que morrer?

O quanto será necessário domar este jardim

que teima em crescer para todos os lados?

Pouco a pouco a convivência faz atrofiar

ramos que talvez um dia florescessem.

Nada como estar perto.

Nada como estar longe.

Morrer um dia por vez

eis um negócio perigoso.

Pouco a pouco a ausência faz murchar

folhagens um dia frondosas.

De cima do meu monte tendo divisar o horizonte.

Constato imediato não haver monte, há um buraco.

Não tenho de onde pular.

B.M.P.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Chamada noturna

Na madrugada o telefone toca prenunciando a morte.

Corta o silêncio como o bisturi do legista já corta o cadáver.

Do outro lado da linha uma mãe, retirada das profundezas

de cinco miligramas de rivotril ouve a notícia.

Chega ainda de camisola no hospital.

Tarde demais para ouvir o último suspiro do filho

e para dizer o derradeiro dorme com deus.

B.M.P.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Diáspora

Até onde posso enxergar meus amigos são férmions

espalham-se pelo mundo e parece

que tendem a atingir uma distribuição uniforme.

Às vezes tento exercer a arte da auto-enganação

e fico imaginando vantagens de se conhecer pessoas em todo lugar.

A ilusão dura pouco e ao olhar pela janela

vejo a lua crescente, um estreito e zombeteiro sorriso

que o céu exibe como que a dizer:

“Tudo bem... Eu posso te fazer companhia.”

E eu fico aqui... Sozinho com o sarcasmo do céu.

B.M.P.